quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Pecado para a morte.

"Se alguém vir seu irmão cometer pecado que não leva à morte, ore, e Deus lhe dará vida. Refiro-me àqueles cujo pecado não leva à morte. Há pecado que leva à morte; não estou dizendo que se deva orar por este."
(1 João 5:16 NVI)

Durante a história da Igreja, muito se questionou sobre essa afirmação e distinção feita por João. Quais pecados são para a morte e quais não são? O que diferencia? O que conta? Decidi escrever este texto para responder a esse questionamento de modo simples e contextual, pois a resposta para o tal se encontra na própria epístola de João. Sugiro que você esteja com essa epístola aberta enquanto lê este meu texto, pois vamos dar uma "passeada" por ela. Ah, utilizarei a tradução da NVI, por ser a melhor principalmente para essa carta de João.

Como está no meu perfil deste blog, sou membro da CCB (ainda). E cresci ouvindo que o pecado para morte citado por João é o conjunto de pecados sexuais, como adultério, fornicação (sexo entre namorados ou ficantes), prostituição e relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. O cristão que cometesse algum desses pecados perderia a salvação. Perderia a "graça". Com o tempo logo percebi que havia algo de errado com essa crença. E é por isso que esse tema me atrai e decidi escrever este texto.

Começarei a explicação partindo do princípio da carta. Lembre-se: a epístola de João tem 5 capítulos. João apenas cita no final do último capítulo sobre os pecados para a morte. Logo, percebe-se que o que ele está fazendo é uma conclusão de tudo aquilo que ele falou na carta. João não começou a introduzir algo novo que deixaria seus leitores se questionando; antes, concluiu todo o seu ensino diferenciando pecado para a morte e pecado que não é para a morte. Entendido isso, comecemos do capítulo 1.

O capítulo 1 começa com o regozijo de João ao narrar sobre a encarnação do Verbo (1 João 1:1-5). João inicia sua carta falando da felicidade em termos conhecido a Jesus. Depois disso, afirma que "Deus é luz e nele não há trevas nenhuma". Agora começa o foco de João:

                              Luz x Trevas
"Esta é a mensagem que dele ouvimos e transmitimos a vocês: Deus é luz; nele não há treva alguma.
Se afirmarmos que temos comunhão com ele, mas andamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade.
Se, porém, andamos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado."
(/1 João 1:5-7 NVI)

A primeira diferenciação do apóstolo concerne no "andar". Veja, Deus é luz. Sendo Deus luz, aqueles que são de Deus "andam" na luz, isto é, suas vidas são caracterizadas por serem trilhadas na luz. A vida sendo vivida, a forma como é trilhada - os filhos de Deus vivem na luz. Andam na luz. Obviamente não quer dizer que não tenhamos pecados, mas, que a nossa vida como filhos de Deus é diferente da vida dos que andam em trevas. Pelo observar vê-se a diferença.
João, como eu disse, pretendeu dizer que vivemos na luz e não nas trevas, mas logo em seguida afirmou que todos temos pecados e precisamos confessá-los. Ou seja, o andar na luz não significa que não tenhamos pecado. Por isso diz:

"Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós.
Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça.
 Se afirmarmos que não temos cometido pecado, fazemos de Deus um mentiroso, e a sua palavra não está em nós." (1 João 1:8-10 NVI)

Ou seja, o que podemos concluir do capítulo 1 da carta de João: há dois tipos de pessoas no mundo. Os filhos de Deus,que andam na luz, embora tenham pecados e devem confessá-los e deixá-los; e os filhos das trevas, que andam em trevas, ou seja, a vida deles é marcada/caracterizada pelo pecado. São pessoas "dadas" ao pecado, diferentemente dos que andam na luz.
Entendido o capítulo 1, passemos para o capítulo 2. E desde já adianto que um dos propósito de João nesta epístola é falar dessas duas classes de pessoas que existem na terra. Segue a próxima diferenciação.

                      Andar como Jesus x Não andar como Jesus
"Mas, se alguém obedece à sua palavra, nele verdadeiramente o amor de Deus está aperfeiçoado. Desta forma sabemos que estamos nele:
aquele que afirma que permanece nele, deve andar como ele andou."
(1 João 2:5,6 NVI)

João agora nos diz respeito ao estilo de vida comparado ao de Jesus. Assim, quem é de Deus - quem é verdadeiramente cristão - anda como Jesus andou. O estilo de vida dele é predominantemente o de Jesus. As pessoas o olham e o veem como ele tenta ser como o seu Mestre. Novamente, não quer dizer que os verdadeiros cristãos não pequem, mas que, via de regra, em termos gerais, consiste na imitação de Jesus. Também é verdade que aquele que afirma ser cristão, mas não anda como Jesus, o tal não está na luz, é um falso cristão. Entendido isso, segue a próxima diferenciação:

                        Amor x Ódio
"Quem afirma estar na luz mas odeia seu irmão, continua nas trevas.
Quem ama seu irmão permanece na luz, e nele não há causa de tropeço.
Mas quem odeia seu irmão está nas trevas e anda nas trevas; não sabe para onde vai, porque as trevas o cegaram."
(1 João 2:9-11 NVI)
Outra diferença entre os que são de Deus e os que não são consiste numa vida de amor. Quem é de Deus é caracterizado por se doar pelo próximo, por repartir, por corrigir segundo Deus - enfim, quem é de Deus ama. Óbvio que não ama perfeitamente. Mas sua vida é caracterizada por amar. Quem não é de Deus, analogamente, não ama. É mesquinho. Sua vida é caracterizada pela falta de amor ao próximo. É egoísta. É amante de si mesmo.

Passemos para o capítulo 3 e a próxima diferença.

                      Não praticar o pecado x Praticar o pecado.
"Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei.
Vocês sabem que ele se manifestou para tirar os nossos pecados, e nele não há pecado.
Todo aquele que nele permanece não está no pecado. Todo aquele que está no pecado não o viu nem o conheceu."
(1 João 3:4-6 NVI)

Seguindo seu raciocínio, João agora remonta ao que disse no capítulo 1 (luz x trevas), mas com outras palavras. Em suma, "praticar" algo não é simplesmente fazer, mas viver naquilo. Tanto é que a palavra "prática" é justamente isso: algo que se tornou padrão - algo que é realizado continuamente. Em outras palavras, o que João está dizendo é: todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado (não é padrão em sua vida). Apesar de todos termos pecados, aqui ele trata de prática. Quem tem o pecado por prática é quem vive nas trevas. Os tais não conhecem a Deus. Não andam na luz. São escravos do pecado. Suas vidas são caracterizadas pela prática do pecado. Portanto, eles "estão no pecado". Quem é nascido de Deus não está no pecado.

                       Amor x Ódio  (novamente)
"Sabemos que já passamos da morte para a vida porque amamos nossos irmãos. Quem não ama permanece na morte.
Quem odeia seu irmão é assassino, e vocês sabem que nenhum assassino tem vida eterna em si mesmo."
(1 João 3:14,15 NVI)

Novamente João fala sobre quem ama e quem odeia, mas de forma mais profunda. Segundo ele, nós podemos ter certeza que passamos da morte para a vida, isto é, que somos cristãos de verdade, se em nossas vidas há amor verdadeiro e praticado. Se alguém se diz cristão, mas não ama, não passa de um homicida, ainda permanece na morte, não pertence a Deus.


Depois de passar por esses 3 capítulos da epístola, duas coisas ficaram claras:

- João trabalha com antítese em toda a sua carta. Um dos seus principais propósitos em toda a carta é diferenciar os filhos de Deus daqueles que não são filhos de Deus. Do verdadeiro cristão dos falsos cristãos;
- João deixa claro os atributos que regem a vida daqueles que são de Deus, de modo que podemos reconhecê-los;

 Entendido isso, vamos para o final da carta e para o inicio deste texto:

"Se alguém vir seu irmão cometer pecado que não leva à morte, ore, e Deus lhe dará vida. Refiro-me àqueles cujo pecado não leva à morte. Há pecado que leva à morte; não estou dizendo que se deva orar por este."
(1 João 5:16 NVI)

Analisando toda a carta, e agora essa conclusão de João, você pode dizer do que se trata os pecados para a morte?

Primeiro que ênfase de João é a oração por aqueles que não pecam para a morte. Por quê? Porque eles andam na luz, como na luz Deus está (capítulo 1). Logo, se o meu irmão, que anda na luz, cai em algum pecado, seja ele qual for, eu posso orar por ele e Deus o perdoará. Esse é um exemplo prático do sacerdócio cristão. Deus dará vida quando orarmos pelos nossos irmãos que andam na luz. Eles serão perdoados. Mas...

Voltando a tudo que foi escrito por João, se alguém se diz cristão, mas não anda na luz, não ama o próximo, o pecado é sua prática - ou seja, ele diz ser cristão, mas sua vida é caracterizada por tudo aquilo que não é de Deus, tal indivíduo permanece na morte. Está pecando para a morte. Ele não é de Deus. Não vai adiantar eu orar por ele, pois Deus não o perdoará. Ele precisa primeiro se converter de verdade.

Portanto, pecado para a morte é uma expressão que serve para caracterizar a vida daqueles que não são de Deus. Ele diz ser meu irmão, mas sua vida é vivida nas trevas, no ódio, na prática do pecado. Eu conheci gente assim na Igreja, que inclusive até hoje está lá nas fileiras. Pessoas que professam Jesus, mas suas vidas são incompatíveis com o Evangelho. 

Esse entendimento é tão certeiro que João finaliza de vez repetindo no próximo versículo o que disse antes na sua carta:

"Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não está no pecado; aquele que nasceu de Deus o protege, e o Maligno não o atinge."
(1 João 5:18 NVI)

E aqui vai algo para os membros da CCB: como vocês puderam ver, quem peca pra morte é quem vive nas trevas, no ódio, no pecado. Não é aquele cristão sincero que tenha caído em pecado sexual. Aliás, em todos os 5 capítulos da carta, João sequer cita pecado sexual. Ele trata o "estilo de vida" daqueles que são verdadeiros cristãos e daqueles que não são, citando como exemplos o viver na luz e nas trevas, o amor e o ódio, o imitar a Jesus e o não imitá-Lo, o praticar o pecado e o não praticar.

Espero que os caros leitores tenham compreendido esse texto. Ao ler toda a carta de João, entendemos com clareza o que ele quis dizer na sua conclusão sobre os que pecam para a morte e os que não pecam para a morte.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.


Um comentário:

  1. Super bem explicado.Não tem como refutar sua maneira de explicar.

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